domingo, 6 de fevereiro de 2011

Retire-se: Reserve um tempo só para você e aproveite as surpresas que um retiro pode trazer


Fonte: Revista Vida Simples

Antes de começar a ler esta reportagem, queria convidar você a fazer um exercício. Experimente ir para um canto tranqüilo onde ninguém incomode por um tempo. Desligue o celular e certifique-se de que o lugar não seja barulhento. Leve papel e caneta. Preparado? Então vamos lá. Escreva no papel uma lista das coisas que você tem que fazer e que o estejam preocupando. Pense nos pepinos da casa, nas contas a pagar, nas tarefas do trabalho, nos desentendimentos dos seus relacionamentos, não deixe escapar nada. Pensou? Agora liste as situações que já aconteceram e que continuam atormentando por terem ficado mal resolvidas em algum canto lá no passado. O arrependimento por ter dito aquilo a um parente, o resultado do exame, tudo. Pronto? Certo. Se você fez a lista a sério, estão aí, na sua frente, todos os motivos para suas preocupações. Nesse papel está o conteúdo da maioria dos seus pensamentos. Bom, o exercício começa agora. Olhe bem para a lista e imagine dar férias de um dia para essas pendências. Sim, eu sei que são todas coisas muito importantes, que você não pode ignorar. Você vai voltar a elas, sim, mas só depois de amanhã.


Pare um pouco. Sinta como é ficar livre, mesmo que por um instante, de todas essas preocupações. Que tal? Sem as pendências, o que sobra em você, o que fica? Bem, o que fica é... você. Isso mesmo. Essa é a grande descoberta de quem resolve dar um tempo e jogar as perturbações do cotidiano para escanteio: entrar em contato imediato consigo mesmo. Afinal, se nossa mente fica o tempo inteiro conectada às coisas que estão fora da gente, não damos nenhuma chance para nos observarmos internamente. Os retiros de meditação servem exatamente para isso: abrir uma brecha nas preocupações com o mundo para se preocupar com você.


Coisas de menos
Você deve estar se perguntando para que é preciso se afastar por um tempo da rotina. O que ocorre é que vivemos entre estímulos demais: há sempre coisas demais para fazer, distrações demais, barulho demais, problemas demais para resolver, escolhas demais. Precisamos sempre ir a mais lugares, querer mais coisas. Não é de espantar que cada vez mais pessoas busquem esses momentos de retiro, de solidão. O psicoterapeuta americano David Kundtz explica que nos acostumamos a lidar com o excesso de coisas a fazer de duas formas: ou tentamos encaixar diversas atividades apertando-as no espaço de tempo do dia ou então cortamos algumas atividades do cotidiano, elegendo as prioridades. Mas, segundo David, já chegamos a um ponto em que não conseguimos cortar mais nada e mesmo assim sempre restam coisas a fazer. Esse exagero, além de gerar estresse, nos afasta de nós mesmos.

A solução, diz ele, é aprender uma atitude simples, mas revolucionária: dar uma parada. Mas, veja bem, aqui o sentido de parar não é o de fugir da vida, jogar tudo para o alto ou evitar responsabilidades. Pelo contrário, é entrar na vida e suas responsabilidades de uma maneira nova: percebendo o que é realmente importante, quais são nossos valores, e trazê-los para o cotidiano. “Parar é ficar sem fazer nada por um período definido, com o propósito de se tornar mais desperto e saber quem você é”, diz David em seu livro A Essencial Arte de Parar (editora Sextante), uma espécie de guia para quem quer pisar no freio.

Essa prática, a bem da verdade, não é nada nova. Todas as tradições religiosas estimulam essa atitude de parar e ficar sozinho, em meditação, como algo necessário para uma vida mais plena. “No cristianismo é só lembrar o exemplo de Jesus, que freqüentemente passava longos períodos isolado. No budismo temos Sidarta, o Buda, que saiu do seu palácio e buscou sozinho na meditação a paz que procurava. E não podemos esquecer que, no islamismo, Maomé também se isolou”, diz Fernando Altemeyer, teólogo e cientista da religião, ouvidor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Mas, por favor, não se intimide pela estatura espiritual dos exemplos acima. É possível retirar-se e meditar sem querer ser um novo profeta. “O que dá significado ao retiro é que quase sempre ele vem acompanhado de uma busca da interioridade. Quando isso não acontece, a pessoa apenas está viajando ou praticando o ócio”, diz Altemeyer. Essa busca interior é o objetivo dos retiros de meditação, que podem ser feitos em alguma tradição específica ou não, em grupos ou sozinho, em casa ou fora, e durar de um dia a semanas. O que vale é perceber que a felicidade não está no mundo externo, nos outros, e sim dentro da gente.

Usufruir da solidão
Um dos objetivos de se retirar é ficar só, sem os elementos que nos conectam ao dia-a-dia. Isso serve para aprendermos a ficar mais à vontade a sós com a própria companhia, a nos conhecer melhor e a gostar mais de nós mesmos. “Quem decide fazer um retiro deve estar disposto a se desvencilhar de todos os contatos externos e do apego à família e amigos para dar um mergulho na sua própria essência e, assim, vivenciar o aqui e o agora profundamente”, diz Moacir Mazzarial, professor do templo budista Zu Lai, em Cotia, que fica a uma hora de São Paulo. No templo têm lugar diversos tipos de retiro com atividades de meditação sentada, caminhando e até durante as refeições.

Os retiros guiados, como os do templo Zu Lai, são feitos em grupo. Mas muitas pessoas preferem ficar em suas próprias casas ou então viajar para o campo para ficar a sós com seus botões, o que certamente exige mais disciplina. “Quando a pratica é feita em um retiro, tem sempre alguém apontando as faixas da estrada para você não sair da rota. Agora, se ela é feita sozinho, você precisa de mais determinação. Mas, à medida que vai trilhando o caminho e percebe que a experiência é boa, você vai se autoestimulando”, diz Moacir.

Foi o que aconteceu com a produtora carioca Denise Chaer, de 28 anos. Por muitos anos ela participou de retiros nos Estados Unidos e na Índia. Há dois anos, decidiu fazer um retiro em casa. “Estava sem dinheiro e cansada, então aproveitei que meu pai ia viajar no Carnaval e fiz da nossa casa um retiro.” Denise acordava por volta das 9 horas, meditava por meia hora, tomava café da manhã, lia um livro sobre meditação, escrevia em um caderno tudo que vinha à sua cabeça e caminhava na praia no final de tarde. Mais: passou a semana sem falar com outras pessoas. “O grande segredo para o retiro dar certo é você estar disposto a fazer essa experiência – e se preparar para isso. Da mesma forma que nos preparamos para dar uma festa, pensamos no convite, cuidamos da comida, chamamos um DJ, você precisa se preparar e criar um bom ambiente para esse seu encontro com você”.

Aprender a relaxar
Outro ponto importante na prática do retiro é aguçar a percepção no momento presente, em todas as ações. As distrações são inimigas da atenção. Se estamos sempre ocupados e sobrecarregados, a vida fica quase automatizada. Se não percebemos o que estamos fazendo ou por que estamos fazendo, se não temos consciência dos objetivos, estamos distraídos. O importante, então, é estar desperto e atento a cada momento. Com essa idéia em mente, a professora de ioga Lílian La Page criou um retiro com cursos de autoconhecimento e meditação no meio da mata Atlântica em Garopaba, Santa Catarina. “As pessoas vêm para repensar a vida e ficar mais conscientes do próprio corpo, das emoções, da respiração”, diz Lílian. E também para relaxar.

Lembra do excesso de estímulos, citado lá no início do texto? Uma das conseqüências dessa dose exagerada é o estresse. Por isso, aprender a desligar-se voluntariamente é crucial para o bem-estar físico e emocional. Se isso não ocorre, o corpo dá um jeito de fazer isso sozinho, por exemplo por meio de uma doença. Que o diga o economista Vítor Caruso, que chegou ao limite e desenvolveu um câncer. Ele descobriu na meditação uma ferramenta valiosa para viver melhor. “Com a prática, consegui entender o que é a paz interna. É preciso primeiro experimentar o que isso significa para poder transmitir e desejar isso para os outros. Um retiro pode trazer esse estado de paz”, diz Vítor, que hoje, recuperado da doença, coordena o centro Ciência Meditativa, em Curitiba. Lá acontece uma vez por mês no final de semana o retiro de um dia em silêncio, sem foco religioso, onde são alternadas as práticas de meditação sentada e andando.

Escutar o silêncio
O silêncio é outro benefício da prática. Ele é a regra de ouro do retiro de dez dias de meditação Vipassana, que tem lugar em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro. Sim, dez dias. Durante esse período, ninguém fala. E pratica-se meditação por dez horas diárias. “O barulho externo impede que a gente escute nosso barulho interno. Quando fazemos silêncio conseguimos ir mais a fundo em nossa estrutura mental e escutar o que ela tem a dizer”, diz o praticante Lucio Lambert, que tem cinco retiros na bagagem.

Existe uma metáfora muito bonita para esse momento de pausa. Tome a vida como uma melodia. Toda melodia tem notas – os acontecimentos. Mas sempre há uma pausa entre duas notas. Porque é exatamente durante a pausa que a qualidade das notas – e o significado da vida – nasce. Sem a pausa, a canção seria caótica, como uma sirene. É por causa desse momento breve, em que uma nota da música cessa e outra surge, que uma melodia ganha significado e beleza.

Faça um retiro de fim de semana sozinho
• Marque a data do retiro na agenda, para se acostumar com a idéia. E para ter tempo de se planejar.
• Se mora sozinho, a experiência pode ser feita em casa. Se não, deixe para um período em que ficará só ou hospede-se em algum lugar tranqüilo.
• Avise amigos e familiares. A idéia é deixar o telefone desligado e o celular só para receber ligações em emergências.
• Deixe a despensa e a geladeira abastecidas, para não se distrair com compras
• Alimente-se com comidas leves, como frutas e sopas.
• Leve roupas confortáveis e o mínimo de coisas possível. Não se distraia com escolhas banais.
• Esqueça televisão, computador, rádio e qualquer outro apetrecho eletrônico que o conecte ao mundo externo.
• Escolha um lugar para a prática de meditação sentado e estabeleça uma disciplina de prática (meia hora de manhã e à noite, por exemplo).
• Exercite o corpo com caminhadas e aproveite para praticar meditação ao andar.
• Lembre-se de levar a atenção para todos os momentos do seu dia – ao tomar banho, ao comer, ao caminhar.
• Procure escutar o silêncio – e a si próprio.

Para saber mais
Ciência Meditativa, (41) 242-6699, www.cienciameditativa.com.br
Meditação Vipassana, (21) 2557-0173, www.portuguese.dhamma.org
Retiro Montanha Encantada, (48) 354-1890, www.yogaencantada.com.br
Templo Zu Lai, (11) 4612-2895, www.templozulai.org.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário